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A presente investigação visou realizar um estudo comparativo entre a gestão dos resíduos de
construção e demolição (RC&D) implementada no Brasil e em Portugal, tendo como base
estudos de caso em duas cidades, Recife e Lisboa, respectivamente. O estudo realizado em
Recife fez parte de uma Dissertação de Mestrado orientada pelo autor, sendo os seus dados
sistematizados neste relatório. O estudo realizado em Lisboa teve como universo de pesquisa
uma área maior, envolvendo a Região Metropolitana (RM) de Lisboa, o que suscitou uma
análise comparativa adicional entre a situação ambiental dos RC&D na Grande Lisboa e na
Península de Setúbal. No procedimento metodológico adoptado no levantamento da situação
ambiental dos RC&D na RM Lisboa (o mesmo utilizado no estudo em Recife) percorreram-se
as seguintes etapas: identificação dos agentes envolvidos na geração, transporte e recepção
dos RC&D; elaboração de estimativas para a geração de RC&D; caracterização dos RC&D
e identificação das acções implementadas para a gestão dos RC&D. Para as estimativas de
geração de RC&D foram utilizados basicamente dados sobre a actividade construtiva e a
movimentação de cargas de RC&D, dado que na monitorização das descargas de RC&D os
dados quantitativos sobre as deposições irregulares foram considerados inconsistentes. Na
gestão dos RC&D foram identificadas acções conforme as directrizes de facilitação (acção
dos agentes), de disciplinamento (acção dos agentes e fluxos de materiais) e de incentivo
(adopção de novos procedimentos). A metodologia utilizada mostrou-se eficaz na elaboração
das estimativas de geração de RC&D, revelando sua expressiva presença nos municípios
estudados, de grande porte (Recife) no caso do Brasil, e de médio porte (Lisboa), no caso de
Portugal. Com base nos resultados, verificou-se que a Grande Lisboa, comparativamente à
Península de Setúbal, tem maior actividade construtiva, tem maior geração de RC&D e
oferece menor infra-estrutura para receber os resíduos. Isto significa que a Península de
Setúbal tem sido destino para grande parcela dos RC&D gerados na Grande Lisboa, apesar
da existência de um rio (Rio Tejo) entre as duas sub-regiões, que poderia ser o elemento
natural a dificultar o deslocamento dos resíduos através de pontes (maior parte feita através
da Ponte 25 de Abril). Outro dado importante em relação ao custo de transporte das cargas
de RC&D é que todos os destinos para esses resíduos, identificados na RM Lisboa, estão a
uma distância máxima de cerca de 23km, a partir da Praça Marquês do Pombal, localizada
aproximadamente no centro geométrico da cidade de Lisboa. A comparação entre as
situações ambientais dos RC&D gerados em Lisboa e em Recife parte da constatação de
realidades diferentes nas condições em que esses resíduos têm sido gerados. A actividade
construtiva de edificações em Lisboa tem sido predominantemente para obras de
remodelação (ao contrário de todos os outros municípios da RM Lisboa), enquanto em Recife
a predominância é para obras de construções novas. No indicador final de geração de
RC&D confirma-se o maior valor para Recife, o que é esperado por essa cidade ter maior
concentração populacional e maior n o total de obras. Entretanto, para a cidade de Lisboa as
obras de remodelação contribuem para a maior geração de RC&D, o que se repercute na
maior taxa per capita para a geração desses resíduos. Tanto para Lisboa quanto para Recife
foram confirmadas a existência de deposições irregulares de RC&D, bem como baixas
quantidades destes resíduos recebidas nos aterros sanitários, localizados fora dos seus
limites administrativos. Dessa forma, o problema ambiental para os dois estudos de caso
(Recife e Lisboa), em relação aos destinos para os RC&D, é semelhante, tendo talvez uma maior dimensão para o caso do Recife, em função dos conhecidos impactos ambientais
decorrentes das deposições ilegais. Com respeito à caracterização dos RC&D gerados nas
duas cidades, identifica-se para ambas alto potencial de reciclagem, considerando os
percentuais de material inerte presente. Relativamente às acções dos Gestores Públicos
destacam-se aquelas para Recife que significam claras intencionalidades alinhadas com a
Gestão Diferenciada de RC&D. Neste aspecto, torna-se marcante a diferença entre as acções
implementadas nas duas cidades para a captação dos resíduos gerados (até 1m3
) em
pequenas obras de remodelação. Enquanto em Recife procura-se facilitar essa captação
através da criação de pontos de recepção descentralizados na malha urbana, em Lisboa têmse
um único Ecocentro, mal localizado na malha urbana, e mantém-se um sistema de recolha
a partir da solicitação dos munícipes, o qual tem se mostrado com pequeno alcance.
Destacam-se ainda para Lisboa a obrigatoriedade de registo de RC&D no Sistema Integrado
de Registo Electrónico de Resíduos - SIRER e a participação mais activa do sector privado
na gestão dos RC&D. Em relação às acções educativas foram identificados vários eventos
com claros objectivos de educação ambiental e adequação aos respectivos regulamentos, nas
duas cidades. As actividades de fiscalização foram destacadas apenas para Lisboa, o que
evidência uma situação de forte pressão sobre os agentes envolvidos directamente na
geração e transporte dos RC&D, em ambiente urbano caracterizado por infra-estrutura
insuficiente, para atender os crescentes volumes gerados. Em ambos os casos (Recife e
Lisboa), há que reconhecer os esforços para enfrentar os problemas decorrentes de cenários
de degradação ambiental e de utilização descontrolada de recursos naturais na actividade da
construção civil. Entende-se que o processo de mudança deva ser contínuo com avanços por
etapas, em que, por exemplo, a fiscalização dos agentes, como importante instrumento de
gestão, seja complementar à oferta de infra-estrutura para o manuseamento adequado dos
RC&D. Para as duas cidades o insuficiente domínio que os gestores das áreas de saneamento
e de limpeza urbana parecem ter sobre este tipo de resíduos, tem dificultado o planeamento
de acções, para o desejável caminho rumo a um sistema de ciclo fechado para os materiais
utilizados na construção civil, a partir da consolidação de um mercado para os agregados
reciclados. Finalmente, entendendo-se a geração dos RC&D como inevitável nos ambientes
urbanos, quer no período de constituição e adensamento das cidades (o caso de Recife), quer
no período de maturidade e necessidade de renovação das construções (o caso de Lisboa)
são necessários permanentes esforços para se avançar rumo a uma gestão mais responsável
dos RC&D. |
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