Abstract:
O zooplâncton, composto maioritariamente por copépodes em diferentes estágios de
desenvolvimento, é uma das principais comunidades biológicas da teia trófica estuarina. Esta
comunidade é responsável pela transferência de nutrientes e de energia para níveis tróficos
superiores, sendo o principal alimento para larvas de peixes, e pode também desempenhar um
papel relevante no controlo de blooms de algas. Assim, a compreensão dos factores que afectam
a dinâmica do zooplâncton nos estuários é de especial importância, constituindo os modelos
numéricos, devidamente validados com dados, ferramentas úteis no estudo desta dinâmica.
No presente estudo desenvolveu-se um novo modelo para simular a dinâmica ecológica da Ria de
Aveiro. Este modelo tridimensional, ECO-SELFE, resulta do acoplamento de um modelo
hidrodinâmico de malhas não-estruturadas, SELFE, e da extensão do modelo ecológico EcoSim
2.0 para simular a dinâmica do zooplâncton. O modelo acoplado, de aplicação genérica a qualquer
sistema estuarino e costeiro, permite a simulação de várias variáveis ecológicas (zooplâncton,
fitoplâncton, bacterioplâncton, matéria orgânica dissolvida e particulada, nutrientes inorgânicos e
carbono inorgânico dissolvido), considerando os ciclos do carbono, do azoto, do fósforo, da sílica e
do ferro. A formulação adoptada para a simulação da dinâmica do zooplâncton baseia-se em
resultados de trabalhos de investigação realizados na Ria de Aveiro. Os testes sintéticos
realizados preliminarmente evidenciaram o bom desempenho do modelo acoplado em termos de
conservação de massa e permitiram reproduzir de forma adequada a dinâmica zooplânctonfitoplâncton
num sistema fechado. Dado que uma das principais dificuldades na aplicação de
modelos ecológicos complexos a sistemas reais consiste no elevado número de parâmetros de
entrada, realizou-se uma análise de sensibilidade à influência destes parâmetros nos resultados
finais do modelo. Esta análise evidenciou que os parâmetros relativos ao crescimento do
fitoplâncton dependente da temperatura, à ingestão de alimento pelo zooplâncton e às taxas de
mortalidade e de excreção do zooplâncton são dos que mais influenciam os resultados do modelo.
A aplicação do modelo à Ria de Aveiro, considerando um total de 23 traçadores ecológicos,
revelou que o modelo representa de forma razoável a dinâmica ecológica ao longo da Ria durante
os períodos simulados (Outono de 2000 e Primavera de 2001), para além de reproduzir
adequadamente a hidrodinâmica e o transporte de escalares neste sistema. Uma análise
preliminar da dinâmica deste ecossistema sugere a importância da especificação adequada das
condições de fronteira e das parametrizações dos processos nas simulações ecológicas,
evidenciando também a complexidade associada à sua dinâmica.