Abstract:
Os fogos florestais podem ter impactes adversos nos diferentes ecossistemas e
seus processos, designadamente nos processos hidrológicos. Algumas das alterações
mais comuns, induzidas pelo fogo sobre o ciclo hidrológico, decorrem da menor
capacidade de intercepção e evapotranspiração, em resultado da destruição do coberto
vegetal e na alteração da capacidade de infiltração, devido à alteração das propriedades
do solo e por vezes da formação de camadas constituídas por compostos químicos
hidrofóbicos. Os efeitos hidrológicos após o fogo traduzem-se normalmente no
incremento do escoamento superficial e no aumento da magnitude do caudal de ponta.
Dada a tendência no aumento da área ardida e no número de ocorrências de fogos
florestais em Portugal, urge a necessidade de se conhecer e caracterizar os impactes
consequentes de tal realidade, tornando possível a definição e aplicação de medidas de
mitigação adequadas e eficientes. Neste sentido, foram definidos como objectivos do
presente estudo contribuir com informação científica relevante à compreensão das
causas capazes de induzir alterações em diferentes processos que constituem o ciclo
hidrológico e estudar o impacte dos fogos nas quantidades envolvidas nesses processos.
As áreas de estudo consideradas foram a bacia hidrográfica a montante da estação
hidrométrica de Ponte Panasco e a bacia hidrográfica a montante da estação de
Manteigas.
De acordo com os resultados obtidos a partir do cruzamento dos dados da
monitorização de escoamento superficial e precipitação verificou-se para a bacia de
Ponte Panasco, a existência de perturbações causadas pelo fogo sobre o escoamento
superficial e suas componentes e consequentemente nos processos de recarga/descarga.
Todavia alterações no regime pluviométrico, um curto período de monitorização e o
desconhecimento de outros parâmetros além do escoamento e precipitação, tornaram os
resultados inconclusivos quanto à magnitude da alteração causada. No caso de estudo da
bacia de Manteigas verificou-se uma subida dos níveis hidrométricos no período
pós-fogo, todavia a inexistência de curva de vazão para a estação hidrométrica
impossibilitou análises posteriores.