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A desertificação e a seca estão a intensificar‑se e a tornar‑se mais frequentes, com impactos profundos nos sistemas agrícolas, ecológicos e socioeconómicos. O projeto IDD‑XB surge neste contexto, procurando integrar informação climática, agrícola e hidrológica proveniente de múltiplas fontes — observações in situ, satélite e reanálises — para melhorar a monitorização e previsão destes fenómenos e reforçar a resiliência das comunidades rurais.
Sendo um projeto de “Estudos de Ciência para as Políticas Públicas”, enquadrado na linha temática de financiamento “Estratégias de combate à desertificação, degradação dos solos e seca (escala ibérica)” do PLANAPP/S4P, procedeu-se à seleção de uma bacia hidrográfica para teste das metodologias que fosse partilhada entre Portugal e Espanha e estivesse situada numa região propensa a secas e à desertificação.
O relatório enquadra a região de estudo, caracteriza os seus sistemas agrícola e hidrológico e apresenta desenvolvimentos metodológicos e operacionais relevantes para a gestão do risco climático.
Os resultados mostram um sinal claro de aquecimento na região, com tendências positivas de temperatura nas últimas décadas, e uma redução generalizada da precipitação anual, embora com aumento no outono em algumas estações. A integração de dados de satélite, reanálises e observações locais revelou‑se essencial para caracterizar a variabilidade hidrometeorológica, evidenciando relações consistentes entre água no solo, vegetação, evaporação e índices de seca. Esta abordagem integrada permitiu identificar de forma robusta episódios de seca entre 2004 e 2025 e demonstrou o elevado potencial destes produtos para sistemas de monitorização e alerta precoce.
Do ponto de vista agrícola, a região apresenta uma matriz produtiva diversificada, com predominância de culturas temporárias, olival e pastagens. A entrada em funcionamento da rede de rega do Aproveitamento Hidroagrícola do Xévora representa um marco estratégico, permitindo intensificar e diversificar culturas, aumentar a produtividade e promover práticas mais sustentáveis. Paralelamente, foi identificada a necessidade de reforçar a rede hidrometeorológica local, nomeadamente através da reativação e instalação de novas estações e da monitorização da água no solo, garantindo dados de maior qualidade para calibração e validação de produtos climáticos. Complementarmente, uma plataforma de visualização do IPMA, foi estendida no âmbito deste projeto com novas funcionalidades e parâmetros, sendo uma ferramenta essencial para o acompanhamento em tempo real das condições hidrometeorológicas, reforçando o potencial de integração futura de novos produtos de satélite e consolidando a infraestrutura necessária para sistemas de alerta precoce e gestão operacional.
Por fim, o relatório demonstra que a precipitação acumulada no ano hidrológico é um indicador particularmente útil para antecipar secas e apoiar a gestão da água. A metodologia de previsão por ensemble climatológico mostrou elevada capacidade preditiva a partir de dezembro — e especialmente entre janeiro e fevereiro — permitindo estimar com confiança a probabilidade de anos secos ou húmidos. Esta ferramenta quantitativa reforça o potencial de apoio à decisão em setores como a agricultura, gestão de albufeiras e planeamento de recursos hídricos.
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1 Introdução
A desertificação e a seca são fenómenos ambientais cada vez mais recorrentes e preocupantes, com impactos significativos na produção agrícola mundial. Segundo as Nações Unidas, até 2050 a degradação das terras poderá provocar a deslocação de 143 milhões de pessoas, em resultado dos impactos iniciais das alterações climáticas. Definida pela ONU como “a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e sub-húmidas secas, resultante de vários fatores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas” (CNUCD, 1994), a desertificação exige uma mudança de paradigma na gestão sustentável dos recursos terrestres. Em Portugal, a comparação da distribuição espacial do Índice de Aridez (IA) calculado para o período 2000-2010 com a do mesmo índice mapeado para o período de 1960-1990, revela um aumento superior a 1,7 vezes quanto às áreas qualificadas como semiáridas e sub-húmidas secas (Figueiredo et al., 2015).
A seca, por sua vez, corresponde a períodos prolongados de escassez de precipitação que podem conduzir a stresse hídrico nos ecossistemas terrestres. Contudo, está longe de ser apenas um fenómeno hidrometeorológico: constitui uma das bases de crises sociais, políticas e económicas complexas, expondo vulnerabilidades dos sistemas agrícolas e evidenciando a necessidade urgente de desenvolver estratégias de adaptação resilientes e sustentáveis (Van Lanen et al., 2017).
A grande variedade de setores afetados pela seca, a sua diversidade geográfica e distribuição temporal, bem como a procura crescente do fornecimento de água para uso humano torna difícil o desenvolvimento de uma única definição de seca. Torna-se, por isso, necessário um procedimento numérico padronizado que permita comparar medidas de seca entre regiões e períodos distintos. No entanto, a falta de consenso em torno da definição de seca torna inviável a criação de um índice universal. Além disso, as características da seca e a variedade de setores económicos que sentem os seus efeitos dificultam a sua quantificação. Devido à sua complexidade, não existe nenhum índice capaz de captar adequadamente a intensidade e severidade da seca e os seus potenciais efeitos nos vários sectores potencialmente afetados e vulneráveis.
O desenvolvimento de indicadores e índices de avaliação é fundamental para sistematizar, quer os processos de gestão e prevenção de secas (Heim Jr, 2002; Steinemann et al., 2005), quer as medidas de combate à desertificação (Pimenta et al, 1999) relacionadas. Estes instrumentos de apoio à decisão permitem monitorizar condições de seca, determinar o momento adequado de atuação e definir níveis de resposta. São essenciais para a elaboração de planos de gestão (Tsakiris et al., 2007) e facilitam a utilização de modelos de apoio à decisão para simular cenários futuros (Andreu et al., 2007).
Ambos os fenómenos (secas e desertificação) têm impactos severos na produção agrícola, incluindo a redução da produtividade das culturas, a perda de terras aráveis, a degradação dos solos e a escassez de água para irrigação. Estes efeitos podem resultar em insegurança alimentar, aumento da pobreza rural e migração forçada de populações agrícolas.
Diversas metodologias têm sido utilizadas para estudar (Pimenta et al, 1997) e mitigar os riscos agrícolas associados à desertificação e à seca, incluindo técnicas de monitorização remota, modelação climática e de solo, avaliação de vulnerabilidade e resiliência, e abordagens de gestão integrada da terra.
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Foram também desenvolvidas várias ferramentas de apoio à decisão para auxiliar agricultores, gestores de recursos naturais e decisores políticos na adoção de medidas informadas. Entre estas incluem‑se sistemas de alerta precoce para secas, programas de conservação de água e solo e políticas de gestão de riscos agrícolas.
Apesar dos avanços na compreensão e gestão dos impactos da desertificação e da seca na produção agrícola (Costa et al, 2019; Almeida et al, 2018), persistem lacunas significativas na investigação. Entre elas destacam‑se a necessidade de integrar de forma mais completa dados hidrometeorológicos, de solo e de cultivo para melhorar a precisão das previsões e dos modelos de risco; o desenvolvimento de estratégias adaptativas que considerem os efeitos das alterações climáticas; o reforço das capacidades de resposta e recuperação das comunidades agrícolas afetadas; e o envolvimento ativo das comunidades locais e dos diferentes stakeholders na conceção e implementação de medidas de adaptação e mitigação.
O projeto IDD‑XB procura colmatar algumas destas lacunas, nomeadamente através do desenvolvimento de um modelo de integração mais abrangente de dados hidrometeorológicos e agrícolas provenientes de diferentes fontes (in situ, satélite e reanálises), com o objetivo de melhorar a capacidade de monitorização e previsão e de reforçar a resiliência das comunidades agrícolas afetadas por estes fenómenos.
A parte técnica deste relatório está organizado em 5 capítulos cobrindo de uma forma transversal as várias tarefas propostas no projeto. Após a introdução no capítulo 1, o capítulo 2 enquadra e caracteriza a região de interesse do ponto de vista meteorológico, agrícola, hidrológico e de ocupação dos solos, seguido pelo capítulo 3 focado nos potenciais desenvolvimento da rede hidrometeorológica e plataforma de visualização. O capítulo 4 apresenta uma nova metodologia e resultados de projeções do ano hidrológico, terminando o relatório com o capítulo 5 com as principais conclusões. |
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