Abstract:
Apresenta-se uma síntese sobre a evolução da geomorfologia costeira imediatamente a sul da embocadura do rio Mondego,
no trecho da Cova-Gala, entre 1975 e 2021.
No início dos últimos anos 60 a erosão costeira na frente oceânica do núcleo urbano da Cova-Gala tornou-se grave. Desde
então a zona foi intervencionada com cinco esporões (1978-1979), três defesas longitudinais aderentes (1975), alimentação
artificial na zona subaérea (1973-1976 e 2019) e submersa (frequentes, desde 2007) e geotubos para proteção da duna frontal
a sotamar do esporão mais a sul (2018-2019). Indiretamente a evolução do trecho também foi influenciada pela construção
dos molhes da embocadura (1961-1965) e posterior prolongamento do molhe norte (2008-2010), pela extração de areia na
praia da Figueira da Foz (1973-1996), pelas intervenções de regularização fluvial e portuária (dispersas no tempo) e pelas
dragagens da embocadura para acesso ao porto (dispersas no tempo).
Para análise da evolução recorreu-se à comparação (através de software de mapeamento de superfícies) dos seguintes
levantamentos topobatimétricos e topográficos de datas sucessivas:
topobatimétricos: agosto/1975 e junho/1978, da Direção-Geral de Portos (assim designado na altura); agosto/2011, das
Direção-Geral do Território e Agência Portuguesa do Ambiente (APA); agosto/2018, agosto/2019, agosto/2020 e
julho/2021, da APA (Programa COSMO).
topográficos: maio/2019, da APA (Programa COSMO); fevereiro/2019 e março/2020, do LNEC (projeto MOSAIC.pt).
Concluiu-se que as estruturas de proteção costeira executadas em 1975 e 1978-1979, em conjunto com a alimentação artificial
da praia subaérea realizada em 1975-1976, limitaram a progressão do surto erosivo verificado no período 1975-1978 e
promoveram a recuperação da praia no período 1978-2011. Em 2011 a linha de costa encontrava-se em média cerca de 25 m
mais avançada do que 1975. Em oposição, a sul da frente marítima da Cova-Gala, especificamente a sotamar do esporão
mais a sul, o surto erosivo já verificado no período 1975-1978 foi fortemente intensificado no período 1978-2011. A análise da
evolução morfológica desde 2011 confirma que a dinâmica sedimentar às escalas temporais sazonal e de médio prazo é
elevada. O trecho beneficiou da deposição de dragados efetuada desde 2007. Contudo, observa-se que as duas células mais
a sul do campo de esporões têm verificado insuficiente recuperação do volume sedimentar perdido durante os períodos mais
energéticos e que a sotamar do quinto esporão as intervenções efetuadas conferiram proteção dunar com pequena duração.
Os resultados sugerem que as intervenções de alimentação sejam estendidas até à praia subaérea.