Abstract:
Secas, escassez de água e cheias, são três aspetos cruciais na gestão de recursos hídricos, que podem
resultar em pressão acrescida sobre os ecossistemas costeiros. Estes problemas são frequentemente
identificados como podendo ser agravados pelas consequência das alterações climáticas. Contudo, as
alterações socioeconómicas que resultaram na migração de parte importante da população de zonas rurais
para zonas urbanas, com duas grandes consequências diretas: (1) a industrialização da agricultura para
produção de alimentos e (2) a urbanização que conduziu (2a) à impermeabilização de grandes áreas do
território e (2b) à ocupação de leitos de cheia, tendo ambas contribuído para o aumento da severidade das
cheias e das inundações urbanas. A primeira consequência resultou na necessidade de armazenamento da
água com modificações dos regimes fluviais e a segunda apresenta-se como especialmente relevante para a
necessidade de adaptação nas cidades que se desenvolvem em margens estuarinas e costeiras.
O armazenamento e utilização de água doce nas bacias hidrográficas para produção de alimentos resulta
na redução dos caudais fluviais para as zonas costeiras com impacto nos ecossistemas marinhos, quer
pela redução do aporte de sedimentos à plataforma costeira, quer pelo aumento da carga de nutrientes que
poderá induzir eventuais problemas de eutrofização.
Sendo a atividade agrícola indispensável, a aquicultura multitrófica em ambientes costeiros poderá ser uma
forma de aliviar as pressões resultantes da agricultura tradicional, reduzindo a pressão sobre o consumo de
água para irrigação, permitindo ainda remover nutrientes em águas costeiras.
Os problemas identificados requerem uma visão holística na perspetiva da gestão de recursos hídricos em
que o conceito de região hidrográfica introduzido pela DQA deverá ser de facto assumido e refletido nos
instrumentos de planeamento. A complexidade dos problemas referidos requer a adoção de tecnologias
avançadas que permitam a sua análise adequada, integrando as bacias hidrográficas e as zonas costeiras
adjacentes. Um desafio cuja resposta passará certamente pela crescente digitalização dos sistemas
mencionados e disponibilização de ferramentas para a respetiva simulação.