Abstract:
As inundações costeiras afetam anualmente milhões de pessoas em todo o mundo, com
grandes perdas socioeconómicas que irão aumentar face à subida do nível médio do
mar e ao aumento dos níveis extremos de água. A extensa linha de costa continental
portuguesa, caracterizada por grande diversidade natural e de ocupação, apresenta
elevada exposição a fenómenos de galgamento e inundação costeira. Estima-se que o
impacto da tempestade Hércules, no início do ano 2014, tenha sido cerca de 16 milhões
de euros (Santos et al., 2015). As consequências do impacto de níveis extremos na zona
costeira dependem das características do território, pelo que a capacidade de obter e
integrar esse conhecimento em ferramentas de previsão que suportem adequadamente
as necessidades da gestão do risco deve ser uma prioridade. No âmbito do projeto
Mosaic.pt (http://mosaic.lnec.pt) desenvolveram-se ferramentas de avaliação do risco de
inundação costeira, integrando a dimensão territorial. A complexidade e a diversidade da
costa continental recomendam uma abordagem holística na identificação e diferenciação
das características territoriais, que dependem da escala espacial considerada. Assim,
a abordagem metodológica do projeto seguiu duas escalas espaciais de análise: a
costa continental portuguesa e três observatórios representativos do trecho costeiro
Ovar - Marinha Grande, onde se concentra o maior número de ocorrências de inundação
costeira (Tavares et al., 2021). Estes observatórios são o setor Barra – Costa Nova, a praia
da Cova-Gala e a praia de São Pedro de Moel, sendo o segundo aquele em que o projeto
foi mais focado. À escala da costa continental portuguesa, o levantamento do histórico de
ocorrências de inundação costeira e seus impactos entre 1980 e 2018, com base em notícias
de jornais, permitiu a construção de base de dados a nível nacional (Tavares et al., 2021).
Esta informação permite pela primeira vez conhecer a distribuição espacial e temporal
das ocorrências ao longo de toda a costa continental, e caracterizar detalhadamente os
seus impactos. Uma abordagem inovadora, baseada em indicadores de suscetibilidade
que representam a complexidade territorial (e.g. histórico de ocorrências, morfologia,
elementos expostos, medidas de proteção costeira, fatores forçadores do perigo de
galgamento e inundação), possibilitou a identificação de tipologias costeiras críticas e
de fatores de risco ao galgamento e inundação (Barros et al., 2023). Esta informação
é fundamental para a definição de medidas de mitigação e de adaptação adequadas
às características territoriais, designadamente em planos de contingência e ações de redução do risco. À escala do observatório, caracterizaram-se, através de dados obtidos
em campanhas de campo, os principais agentes hidrodinâmicos forçadores do perigo de
galgamento e de inundação costeira, e de como o estado morfológico da praia influencia
o impacto daqueles fenómenos no território (e.g. Freire et al., 2020, Nahon et al., 2022a).
Dados obtidos no terreno suportaram igualmente o desenvolvimento de uma metodologia
replicativa de avaliação da vulnerabilidade considerando diferentes dimensões do
território (e.g. morfologia, uso e ocupação do solo, edificado), que foi aplicada aos
observatórios e permitiu a cartografia de um índice de vulnerabilidade territorial (Barros,
et al, 2022). No observatório da Cova-Gala foi implementado e validado um sistema de
previsão em tempo real de níveis extremos através da plataforma OPENCoastS (Oliveira
et al., 2021). O modelo hidrodinâmico XBeach foi também implementado e validado para
este observatório, e desenvolvida e testada uma metodologia que permite a geração de
mapas de inundação para diferentes cenários de perigo (Nahon et al., 2022b). Foram
desenvolvidas metodologias que visam melhorar a capacidade de previsão através
da recolha de dados de terreno em tempo real. São exemplos: 1) a monitorização de
níveis de água, através de um sensor instalado na marina do porto de Figueira da Foz,
e sua comparação com resultado das previsões; 2) a extração automática da linha de
costa de imagens de satélite Sentinel 2, disponível na plataforma WORSICA (https://
worsica.incd.pt/index), e desenvolvimento e avaliação de um método para assimilar estes
dados em modelos morfodinâmicos (Fortunato et al., 2022); 3) extração automática de
indicadores hidrodinâmicos, como a linha de água, de imagens adquiridas com uma
câmara de vídeo instalada no observatório de São Pedro de Moel (Martins et al., 2022).
As perceções ao risco e as práticas locais de mitigação à inundação das comunidades
locais foram recolhidas e analisadas numa sessão de divulgação e discussão dos
resultados na Cova-Gala. Para o efeito, aplicaram-se grelhas com afirmações exprimindo
diferentes visões e perceções do território e dos riscos costeiros, seguindo a técnica
participativa denominada de Q-Methodology. No âmbito do projeto foi desenvolvida e
implementada uma plataforma WebSIG (http://portal-mosaic.lnec.pt/mosaic; Rocha et al.,
2021) que permite o acesso a informação e dados multi-fonte quer à escala da costa
continental portuguesa, quer ao nível do observatório. A informação disponível inclui
previsões hidrodinâmicas, dados das campanhas de campo e de sensores instalados
no terreno, cartografia da linha de costa com base em imagens de satélite, e informação
do histórico de ocorrências. A versatilidade e multidimensionalidade desta ferramenta
torna-a num instrumento de apoio à gestão do risco de inundação, particularmente ao
nível do planeamento e resposta à emergência, e na definição de melhores formas de
planeamento e comunidades mais resilientes.