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A fragmentação dos cursos de água, imposta pela presença de diversas infraestruturas hidráulicas, é considerada
como uma das principais causas de degradação dos habitats aquáticos. Conforme o estabelecido na Diretiva
Quadro da Água (Directiva 2000/60/CE), vários estudos têm sido realizados para documentar os diversos impactes
dessas infraestruturas nos ecossistemas ribeirinhos, e dessa forma encontrar soluções que possam colmatar ou
minimizar os seus efeitos adversos. No entanto, os impactes de pequenas obras hidráulicas nas comunidades
piscícolas, tais como dos pequenos açudes (< 5 m de altura), têm recebido menos atenção, pois estas estruturas
têm sido consideradas como pequenas barreiras que são a priori permeáveis à livre movimentação dos peixes.
Contudo, os pequenos açudes, que se estima serem 2 a 4 ordens de grandeza mais numerosos do que as barragens,
modificam a hidrodinâmica natural dos cursos de água, alterando a velocidade da corrente e as profundidades da
água, tanto a montante como a jusante da estrutura, formando desníveis que, em alguns dos casos, poderão ser
intransponíveis. Na Península Ibérica, as comunidades piscícolas são constituídas principalmente por espécies
ciprinícolas potamódromas, que apresentam padrões de mobilidade característicos. Quando comparados com os
salmonídeos, os ciprinídeos potamódromos são normalmente considerados como espécies com moderada ou baixa
capacidade de transposição de barreiras, devido ao seu limitado desempenho de natação, e pequena capacidade de
salto. Portanto, a permeabilidade dos pequenos açudes aos movimentos da fauna piscícola está altamente
condicionada pelas condições locais e temporais, bem como pelas características das espécies presentes, tornandose
fundamental considerar a complexidade destas condicionantes e desenvolver mais estudos, particularmente para
as espécies com capacidades natatórias menos desenvolvidas.
Com o presente estudo pretendeu-se avaliar, em condições experimentais controladas, a capacidade das espécies
ciprinícolas potamódromas, mais concretamente do barbo-comum Luciobarbus bocagei, de transpor estas
pequenas barreiras, considerando as duas tipologias de açudes mais frequentes nos cursos de água Ibéricos – os
pequenos açudes de faces verticais, e os açudes rampeados. O desempenho de transposição dos peixes, bem como
o seu comportamento aquando da aproximação e transposição destes pequenos obstáculos, foram analisados tendo
em conta a influência de parâmetros considerados como preponderantes na transposição destes obstáculos, tais
como: a profundidade de água a jusante do açude (D, de 10 a 50 cm), a queda a transpor (H, desnível entre a
superfície livre da água a jusante e o topo da soleira do açude, de 5 a 25 cm), e a largura da soleira (W, de 20 a 80
cm), no caso dos açudes de faces verticais; o comprimento da rampa (L, 150 ou 300 cm), e a sua inclinação (S, 10
a 30%), quando se trata dos açudes rampeados. Ainda no caso dos açudes rampeados, foi igualmente avaliada a
adição de diferentes substratos ao longo da rampa, como possível medida de requalificação destas estruturas. As
diferentes configurações testadas, resultantes da combinação dos referidos parâmetros, foram ainda testadas ao
longo de uma variedade de caudais (Q). Os ensaios laboratoriais foram desenvolvidos num canal experimental que
se encontra nas instalações do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).
Os principais resultados sugerem que, no que diz respeito aos açudes de faces verticais: i) a capacidade de
transposição do barbo-comum foi inibida pela ocorrência de baixas profundidades de água a jusante do açude em
associação com elevadas quedas de água a transpor; ii) o comportamento de passagem dependeu da combinação
de profundidade de água a jusante com a queda de água a transpor; iii) a largura da soleira influenciou as passagens
para jusante, mas não as transposições para montante; e iv) o aumento do caudal condicionou o número de
transposições bem sucedidas do barbo-comum (Fig. 1). Quanto aos resultados dos ensaios com os açudes
rampeados, conclui-se que: i) a transposição foi condicionada pelo aumento do comprimento da rampa, e da sua
inclinação, bem como pelo aumento do caudal; e ii) a aplicação de substratos naturais, como pedras, pode aumentar
a permeabilidade das rampas à movimentação dos peixes (Fig. 2). Estes resultados são úteis para aumentar o
conhecimento sobre a capacidade de transposição destas espécies potamódromas, frequentemente menos
estudadas, permitindo compreender os problemas dos pequenos açudes existentes, bem como identificar possíveis
obstáculos às suas migrações, devendo servir igualmente para ajudar a desenvolver medidas de requalificação de
forma a projetar estruturas mais permeáveis à livre movimentação dos peixes. |
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