Abstract:
O estuário do Tejo é o maior da Europa, com cerca de 320km2 de superfície e 80km de
comprimento até ao limite da maré dinâmica. É composto por um domínio interno pouco profundo
(<10m), dominado pela maré, conectado ao domínio externo, dominado pelas ondas, por um canal
profundo (cerca de 40m) controlado estruturalmente. Os sedimentos do estuário interno provêm
maioritariamente da erosão das rochas pré-mesozoicas (predominantemente granitóides, folhelhos,
xistos, metagrauvaques) da bacia ibérica do Tejo (81000km2); constituem fonte secundária os
materiais sedimentares meso-cenozóicos de bacias hidrográficas menores e que drenam
directamente para o estuário (calcários, margas e principalmente argilas e arenitos). Os sedimentos
de fundo são essencialmente vasosos nas áreas subtidais e intertidais (incluindo sapais e rasos de
maré) e arenosos nos canais e em algumas praias e restingas. O domínio intertidal ocupa 130km2,
dos quais 20km2 correspondem a sapais colonizados por vegetação halófita característica (Spartina
maritima, Halimione portucaloides, Sarcocornia fruticosa e Sarcocornia perennis). Alguns destes
sapais são marginais, expostos a ondas de geração local (e.g. Pancas, Trancão), enquanto outros
se formaram ao abrigo de restingas (e.g. Corroios). O sapal de Pancas situa-se na margem
esquerda do estuário, próximo da desembocadura do rio Sorraia, e o do Trancão na margem direita,
mais para jusante, na desembocadura do rio Trancão; o sapal de Corroios situa-se também na
margem esquerda, no interior de uma baía definida pelo vale colmatado do rio Judeu e por ele
alimentada em sedimentos finos.
A acreção dos sapais é fortemente controlada pelos tempos de submersão, regulados pela
sucessão de níveis da maré que, em ambientes confinados e rasos, pode apresentar distorções de
fase importantes. Com o objectivo de conhecer o historial de acreção recente e projectar no futuro a
evolução morfológica das margens estuarinas num cenário de subida do nível do mar decorrente de
alterações climáticas, determinaram-se as taxas de sedimentação em cada um destes locais. Para
tal, colheram-se três testemunhos de sondagem curtos (1.2 a 1.65m) com amostrador van der
Horst, que foram amostradas a cada centímetro para determinação do perfil de variação em 137Cs
e 210Pb, caracterização textural e composicional. Os resultados indicam tratar-se de sedimentos
silto-argilosos com teores de matéria orgânica crescentes para o topo (de 5-7% para 10-17%) e
teores de carbonato de cálcio (0 a 6%) relacionados com conchas e fragmentos de conchas. As
taxas de acreção determinadas excedem em todos os casos a taxa de subida do nível do mar no
último século (0.2 a 0.3 cm/ano - registo do marégrafo de Cascais) e são mais elevadas no sapal
localizado a montante: Pancas – 2.2cm/ano; Corroios – 0.5 a 0.9cm/ano; Trancão – 0.5 a
0.7cm/ano. Admitindo que a possibilidade de acreção do alto sapal cessa à cota do nível médio do
preia-mar de águas vivas e extrapolando linearmente para o futuro a variação do nível do mar
observada desde meados do século XIX, estimaram-se em cerca de 30 (Pancas) e 70 a 180 anos
(Corroios e Trancão) as janelas temporais que precedem a terrestrialização da superfície hoje
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